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A Rapariga na Aldeia

A Rapariga na Aldeia

Lamento Querida… Mas Não Tenho Notícias Boas Para Lhe dar

Completa(MENTE) escrito por Sónia Vaz 

 

Foi assim que começou o discurso da médica de bata impecável que tentava encontrar vida dentro de mim. Quando percebeu que a luz que pisca na ecografia, a que é o bater do coração, não piscaria. E que aquele coraçãozinho, não mais bateria. Foi assim naquele dia, mas já havia vivido outro igual naquele terrível janeiro.

 

Hoje escrevo para vocês. Para todas as mães que conhecem a angústia de tal momento, o choque de tal sensação. Para as que voltaram a ser mães depois e também para as que ainda não conseguiram. Escrevo de dentro das minhas entranhas, na esperança de que esta dor seja uma dor compreendida e não, como senti que foi comigo, sacudida por um mero “tentas mais tarde” ou “qualquer dia tens outro”, ou ainda “já tens dois, querias mesmo mais um?”. Queria. Claro que queria. E também queria que me tivessem deixado chorar sem terem pressa de que voltasse a ser feliz de novo.

thumbnail_pastedImage.pngCréditos: Pixabay 

 

Engravidei pela terceira vez sem planear. Sofri um aborto tardio às 14 semanas. Voltei a engravidar passados uns meses. Voltei a perder. Quase me perdi de mim. Quase me perdi do sentido da minha existência, do amor dos meus filhos, da minha família. Sofri muito. Imenso. Sózinha. Porque ninguém nos deixa chorar.

As pessoas gostam de nós e não aguentam ver-nos assim. Mas nós precisamos de estar assim. São muitas mudanças físicas e psicológicas em intervalos de tempo muito curtos. Não há personalidade forte que aguente. Ou melhor, aprendemos a fingir em sociedade e a sofrer na intimidade, o que arrasa connosco e com todos os que nos amam.

 

A dor vai acalmando claro. Temos que viver, trabalhar, fazer coisas, ver pessoas. Vamo-nos distraindo. Mas a dor volta. Quando menos esperamos volta. Maior. Mais angustiada, mais desesperada. Não nos façam passar por uma coisa destas sem a sentir. Temos mesmo que a passar, se a queremos curar. Não digam o que se costuma dizer. Façam só o que fez a minha tia. Sentem-se connosco na cama, façam-nos festinhas na cabeça e deixem-se ficar no silêncio. Naquele que diz: Estou aqui contigo. Entendo-te. Chora. Se nos deixarem chorar, vamos perdendo a vontade de o fazer. Se não nos deixarem, vamos fazê-lo sempre que tivermos um espacinho: no carro, na casa de banho do trabalho, a meio da noite quando todos dormem.

 

Acreditem. A perda de um bebé é uma violência para a mulher (para a família!) que tem de a suportar. Não há palavras que nos confortem, nem conselhos para dar. Lembro-me que na altura do meu primeiro aborto, que foi conhecido por toda a gente, dado ser de uma gravidez algo avançada, muitos foram os que disseram, enfermeiras no hospital inclusive, “mas já tem dois filhos, pense nisso”. Sem entenderem que isso não serve de consolo. Se não tivesse nenhum provavelmente teria a vida à minha frente e muito tempo para tentar de novo. Mas com a minha idade não. O relógio biológico aperta e eu sabia, que já era muito tarde para tentar a minha sorte. Não me servia de consolo. Só aumentava o meu desespero. Cada filho é único. Amo os que tenho, mas também amava muito os que não nasceram. Nisto de ser mãe, não há substituições. O nosso coração chega para todos aqueles que a vida nos quiser dar.

 

Um beijinho muito grande para duas grandes amigas, que nestes dias passaram por isto. Para todas as mulheres que já passaram por isto. Afinal, só queremos um pequeno “heart to love”. Por isso vos deixo, com esperança e de coração cheio, a canção dos Passenger com o mesmo nome.

 

thumbnail_2017-07-02-PHOTO-00000294.jpg

Sónia Vaz

Professora de Inglês - 1º Ciclo

 

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Cátia Santos catiafsantos@hotmail.com

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