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A Rapariga na Aldeia

A Rapariga na Aldeia

Entrevista a Elisabete Jacinto

Tornou-se uma das primeiras mulheres do mundo a terminar o rali Paris-Dakar ao volante de um camião. Aprendeu a estar no universo masculino e a dar constantes provas da sua qualidade. Nem sempre foi fácil, diz. Ainda hoje há quem ache que, por ser mulher, é mais fraca. Elisabete Jacinto não valoriza e responde em pista. Há quem não aprecie as respostas, ou melhor, as ultrapassagens! 

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Quem era a Elisabete Jacinto antes das competições de todo-o-terreno? 

Era professora de geografia. Tímida, insegura e cheia de medos. Houve uma certa altura da minha vida, ainda antes disto tudo, em que considerava a minha vida pouco ou nada  espetacular, sem graça mesmo. O desporto mudou muitos aspetos em mim, nomeadamente o facto de passar a considerar-me uma pessoa mais apta, mais capaz e segura de mim. Percebi que muitos dos meus medos não tinham razão de existir e encontrei um gozo especial em desafiar-me. Portanto, posso dizer que fiz com o desporto uma série de conquistas a nível pessoal. Mesmo quando as coisas não correm tão bem, consigo tirar partido da situação e evoluir como pessoa.

 

No livro Irina no Master Rali, conta as aventuras, os obstáculos e a história de superação de uma rapariga que também podia chamar-se Elisabete 😁?

Sim, a Irina é uma rapariga que fez um rali com uma mota grande e pesada e claro, teve imensas dificuldades. É uma história verdadeira. Sabe, eu achava que tinha tantas experiências e emoções que mereciam ser contadas e, como gosto de escrever, aproveitei para mostrar aos jovens que, se quisermos, os nossos sonhos realizam-se, que tudo na vida é possível desde que acreditemos em nós. Basicamente foi este o intuito deste livro. 

 

A Elisabete começou por competir em duas rodas, como passou para os camiões? 

A decisão de trocar as motas pelos camiões foi um processo um pouco doloroso. A minha última participação no Dakar de mota correu menos bem e no regresso ponderei abandonar a competição. Acabei por deixar de competir. Passado algum tempo pensei ... e se eu fizer de camião? Aquelas perguntas que devemos sempre fazer a nós próprios, e se...? e se...? Vi umas imagens na televisão e, de repente, tudo fez imenso sentido, imaginei-me a conduzir um camião e a saltar nas dunas! Deve ser giro, nenhuma mulher o fez, disse eu ao meu marido. Tirei a carta de pesados em outubro e em janeiro estava no rali Dakar a competir de camião!! 

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Não deve ser fácil encontrar um local para treinar tendo em conta a dimensão do camião? Onde é que o faz?

Não é fácil. Normalmente peço autorização à brigada do Campo Militar de Santa Margarida. Lá existe uma área ampla e com alguns buracos, ideal para o mecânico perceber se está tudo em ordem com o camião e afinar suspensões por exemplo. O camião é muito grande e há locais onde não passa devido às árvores. Portanto, em Portugal, o treino que faço é neste sítio. Por norma, um dia ou dois antes das provas vou treinar para o deserto.

 

Que outro tipo de treino faz?

Ao longo do ano vou fazendo preparação física, ginásio 2 horas por dia, tenho cuidado com a alimentação, com as horas de descanso e de sono pois a ideia é estar em forma. O volante e a caixa de velocidades do camião são bem pesados por isso convém manter-me em forma!

 

Quando será a próxima corrida?

Será agora em Abril, o Morocco Desert Challenge. É uma prova muito gira, com imensos camiões que começa no sul de Marrocos e acaba no norte. Nesta prova, as primeiras etapas são muito difíceis, penso que não vou aguentar, que vou morrer (risos), mas depois aquilo vai-se aligeirando. 

  

Que terreno ainda a intimida? (desconfio qual seja mas tenho de lhe perguntar 😁)

As dunas! Ainda não as trato por tu mas também já não é bem por "sua excelência"! Digamos que ainda há alguma cerimónia entre nós. Trato-as por "você"! Porque as dunas são sempre uma surpresa constante. Nunca se sabe o que está do outro lado. Por exemplo, ao meio dia não se consegue perceber a inclinação da areia. Aquilo parece tudo igual. Não há referências nem perspetivas, portanto tenho algum respeito por elas! 

 

Disse que ao volante de um camião não se deve arriscar pois as consequências podem ser desastrosas. Aprendeu a lição no último rali de Marrocos? 

Sim, numa prova de camião não se pode fazer nada que não se saiba que vá correr bem. Acontece que dessa vez subi a duna e, como o meu camião tem uma frente grande, só consegui ver o que estava do outro lado quando já estava a descer. Quando fiquei virada para baixo vi que estava mal posicionada e já não fui a tempo de corrigir. Aprendi a lição. Mesmo. 

 

Como se passa 2 noites e 2 dias no deserto? 

Mal, passa-se mal! Comíamos latas de conserva e deitávamos a cabeça em cima de garrafas de água. Cavámos buracos na areia para nos protegermos do frio durante a noite. De dia o calor era infernal e não havia sombras. Ali sentimos a fragilidade das nossas vidas! O nosso camião tombou por volta das quatro da tarde e até ao pôr do sol veio uma terrível tempestade de areia, não se via nada. Pusémo-nos os três na crista da duna de costas viradas para o vento, com a cabeça coberta e com os fatos vestidos apesar do calor pois a areia picava-nos! 

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Como é que se foi convencendo a si e aos outros da sua profissão?

Olhe não sei se hoje "os outros" ainda estão convencidos. Eu estou e trabalho diariamente para ter os melhores resultados desportivos. Sou muitas vezes confrontada com situações em que as pessoas não me levam a sério precisamente porque sou mulher num mundo profissional maioritariamente habitado por homens, logo, e como deve calcular, são muitas as situações em que percebo que, se faço bons resultados é porque a prova era fácil. Ainda há muito aquela ideia de que as coisas difíceis são para os homens e as mulheres são mais fracas e não são capazes. 

 

De uma forma geral, a convivência no universo masculino tem sido saudável?

Sim, é verdade, tem sido bastante saudável. São todos muito simpáticos comigo e o ambiente nos acampamentos é agradável. Às vezes em pista há uma ou outra situação que me irrita mas tento passar por elas com alguma inteligência e não valorizar uma série de coisas. 

 

Conte-me uma situação que a tenha irritado.

Posso até contar-lhe mais ... sabe que já levo muitos anos disto ... Há uns anos ganhei a categoria de camião num rali em Marrocos. Um senhor jornalista marroquino entrevistou o meu marido (não a mim) e perguntou-lhe claramente se ele não achava que o facto de uma mulher ganhar a categoria não desvalorizava a modalidade! (risos, muitos risos). O meu marido respondeu-lhe, e bem! 

Outra situação: Vamos lá...ninguém gosta de ser ultrapassado, certo? muito menos em prova e muito menos quando olham pelo espelho e percebem que o camião que está a buzinar é o de uma mulher!! (risos) Imagine ... eles detestam! Uma vez andei cerca de 100kms atrás de um camião e não estava a conseguir ultrapassá-lo. Pensei, não vou buzinar, vou sim apanhá-lo de surpresa, meio distraído e, na primeira oportunidade, passo-o. Assim fiz, aproximei-me, a determinado momento ele travou ... e eu ultrapassei-o. Quando estou mesmo ao lado dele, o meu camião dá um salto brutal! Faltou-nos o ar aos três (risos). O navegador já me tinha falado na existência da vala (que fez o da frente abrandar) mas eu nem o ouvi ... Era uma vala perigosa e podia ter sido terrível. Mais tarde, no acampamento, o senhor veio ter comigo perguntar-me quais eram os amortecedores que eu tinha no camião que me permitiram passar por ele a voar. Respondi-lhe que o meu camião passou pelo dele porque tem um grande piloto (risos). Deu-me um gozo enorme responder-lhe assim. Ele considerou a ultrapassagem inaceitável, pois claro, mas só podia ter sido feita se o meu camião fosse melhor do que o dele, não pela qualidade do piloto. Está a ver?!!! 

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Como acha que está atualmente a voz das mulheres?

Acho que as mulheres começam agora a ganhar algum destaque e autonomia. Começam a ter consciência de que têm valor e de que têm direito também ao primeiro lugar! Mulheres e homens são diferentes. Ponto. E não é só fisicamente. Os homens são extraordinários numa série de coisas e nós, mulheres, noutras. Ninguém tem de imitar ninguém. Aqui o ideal é o trabalho de equipa, devemos saber puxar por aquilo que temos de bom. Digo-lhe mais, muitas vezes, em prova, percebo que ganho vantagens em relação aos adversários porque dentro do camião temos as duas perspetivas. Está a ver?! Acho que devemos querer fazer o que gostamos, o que nos dá prazer e nunca porque os homens também fazem. 

 

Em relação ao assédio e às mais recentes denúncias que temos assistido, que leitura faz dos movimentos que daí resultaram?

A parte boa disto que anda a acontecer é falar-se dos assuntos. As mulheres têm de deixar de ocultar casos desagradáveis. Têm de denunciar os abusos de poder por parte dos homens para que se perceba que essa arma (sexo) não pode ser utilizada. As mulheres devem expor as situações e os homens devem ser penalizados para que todos percebam que esse não pode, de todo, ser o caminho! 

 

Porque é que acha que ainda faz sentido o Dia Internacional da Mulher?

Porque ainda não chegamos lá ... onde homens e mulheres possam partilhar uma sociedade em pé de igualdade, de direitos de capacidade e igual papel. Talvez quando chegar o dia em que as mulheres puderem ser o que quiserem sem qualquer tipo de obstáculo ou os homens assumam que fazem coisas em casa sem que isso os faça sentir diminuídos, já não faça sentido este dia. Agora, também considero que, apesar da evolução, não me parece que a sociedade tenha vindo a desempenhar esse papel na perfeição. Tem de haver uma educação para a igualdade de géneros que ainda não está posta em prática. Não há coisas para eles e coisas para elas! 

 

Gostaria que o nome Elisabete Jacinto fique associado a uma mulher que …

... conquistou uma modalidade extremamente difícil e com poucos recursos.

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 *Fotografias cedidas por Elisabete Jacinto. 

 

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