Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Rapariga na Aldeia

A Rapariga na Aldeia

Entrevista à Dr. Sónia Neves

É psicóloga clínica, especialista em psicoterapia em crianças e adolescentes, e vai dar-nos a sua opinião sobre o polémico programa da SIC - Supernanny. Falamos de um formato televisivo em que uma psicóloga ajuda os pais a corrigir os problemas comportamentais dos filhos. Apesar de ser um sucesso televisivo noutros países, por cá não me parece que a palavra "sucesso" seja a mais apropriada. Falemos então numa acesa polémica em torno do que este programa representa para os seus intervenientes.  

IMG_2698.jpg

Com a Dr. Sónia no seu gabinete, no Centro de Saúde de Pêro Pinheiro.  

 

 

Enquanto psicóloga que leitura faz do programa Supernanny?

Relativamente ao tipo de programa devo dizer que discordo totalmente. Não defendo o facto de se expor a intimidade das crianças daquela forma. Obviamente que o adulto (neste caso os pais) permitiu essa mesma exposição mas acho que os direitos das crianças, e a própria identidade, devem ser reservados. Este tipo de problemática e todas as rotinas dentro da casa da família é algo muito privado e como tal, considero que há formas mais adequadas para tratar problemas comportamentais. 

 

Porque é que acha que muitos telespectadores se sentiram desconfortáveis com o que viram nos programas? 

Acho que se deve essencialmente ao facto de se tratar de casos reais e não de encenação. Tudo aquilo que assistimos nos dois programas acontece no dia-a-dia daquelas famílias e o facto de ali estarmos todos como telespectadores é que torna tudo um pouco promiscuo. Ver uma criança em sofrimento e uma mãe perdida e desorientada é sempre algo agressivo. 

 

Que análise faz das intervenções e do método da psicóloga Teresa Paula Marques? 

No primeiro programa, posso dizer que discordei por exemplo com o ar intimidador com que se apresentou à família. Se vou para a casa de uma família, trabalhar lado a lado com todos, eu preciso de estar mais confortável, mais prática. Resulta melhor até mesmo para estabelecer empatia com as crianças. Isso e mais uma ou outra "careta" que achei desadequadas para quem está a trabalhar aquelas problemáticas. No segundo programa, notei que houve algum cuidado a esse nível. Quanto ao desempenho profissional da psicóloga Teresa Paula e às técnicas aplicadas não consigo apontar situações erradas. Obviamente que se preparou muito bem para ali estar. Não me chocou, como a algumas colegas de profissão, por exemplo, o castigo no banco, as regras escritas num quadro, o sistema de recompensas, a importância das rotinas e das regras impostas por adultos. Eu até considero que o trabalho ali é bastante eficaz. O facto de estar lado a lado com a realidade e ajudar a família nas rotinas diárias, considero mesmo eficaz, como de resto se viu. Agora, ser um trabalho exposto é que não concordo. 

  

Que impacto pode ter este tipo de exposição na vida das crianças?

Assim que vi o primeiro programa pensei logo que a miúda ia ser gozada na escola porque sabemos até onde vai a crueldade das crianças. Por outro lado, nada é taxativo, não fiquei a pensar que aquela criança iria sofrer para o resto da vida por ter participado naquele programa de televisão. Acredito que as consequências imediatas possam ser mais difíceis de gerir.  

 

Várias entidades vieram a público condenar este tipo de reality shows e a exposição mediática das crianças. Concorda ser contra o superior interesse das crianças ainda que neste caso específico o objetivo seja corrigir comportamentos?

Sou manifestamente contra toda esta exposição que envolve crianças e problemáticas comportamentais. Por outro lado, acho que também se deve pôr todos os programas, telenovelas e filmes no mesmo saco. Falamos de crianças que não têm maturidade suficiente para decidir sobre as suas vidas e por isso não concordo que assim sejam expostas.  

IMG_2694.jpg

De uma forma geral, ao que é que se deve o mau comportamento das crianças?

Eu acho que tem a ver com questões familiares e com o que a sociedade vai fazendo de nós. Por exemplo, hoje em dia, os pais trabalham cada vez mais horas e os avós/família não conseguem apoiar como no tempo da minha infância por exemplo. Isto faz com que as crianças passem mais tempo nas escolas, nos ATL's, nas AEC's, nos colégios (comparativamente com o que passávamos no meu tempo de criança). Deixou claramente de haver UMA figura de referência. As crianças passaram a ter várias pessoas a quem têm de ouvir e respeitar. Eu considero que, e tendo em conta a minha experiência profissional, as crianças perderam o seu ponto de equilíbrio, a referência. Portanto, este tipo de relações, por vezes frágeis, podem levar a criança a sentir-se mais insegura e menos confortável, pode levar a que uma criança confie menos no outro e isto, que à partida pode parecer simples, alastra-se e reflete-se nos seus comportamentos diários. 

   

Os pais têm cada vez mais dificuldade em contrariar os filhos? 

Apercebo-me aqui em consulta que os pais têm imensa dificuldade em contrariar as crianças e isso faz com que os miúdos não consigam lidar com o "não". É fundamental que os pais, e por mais que isso lhes custe, digam "não", que contrariem quando assim tiver de ser. São os adultos que devem continuar a impor as regras e para que isso funcione têm de o fazer sem medos. Acontece que muitas vezes, ao fim do dia, os pais estão cansados e tendem a ceder às exigências dos filhos. Mas convém lembrar que a cada cedência eles "crescem" um bocadinho! 

 

Há certos e errados na forma de educar? Há uma fórmula mágica? 

As pessoas são todas diferentes e, por isso, não existe o certo e o errado. Obviamente que temos uma linha condutora que nos orienta enquanto cuidadores. Sabemos o que é e o que não é aceite. Todos nós temos parâmetros de educação diferentes. Não posso dizer esta educação é perfeita porque a educação de um filho tem muito a ver com a própria dinâmica familiar, com a maneira de ser de cada um e de como o pai e a mãe se conjugam para "construir" um filho. Nós, enquanto pais, temos de estar em consonância no que respeita as regras, os limites e a educação dos nossos filhos. E é importante que eles percebam que os pais estão do mesmo lado para que não tenham dúvidas da linha a seguir, para que se sintam seguros. Não podemos, de todo, aceitar que a mãe diga uma coisa e o pai banalize ou simplifique. Aí vamos ter uma criança a tentar aproveitar-se de tudo e "jogar" com as pessoas. 

 

Uma criança feliz é uma criança com regras? 

A teoria diz-nos, e é verdade, que as crianças são mais felizes quando sentem que alguém se preocupa com elas, quando sentem que têm regras e limites. E, temos sempre de nos lembrar que, por mais que tentem ultrapassar os limites impostos pelos cuidadores, saber que eles existem é bom para o seu crescimento. Faz-lhes muito bem. Dá-lhes segurança. 

  

O que deve haver na relação pais e filhos?

Acima de tudo deve haver amor, respeito, cumplicidade e confiança. Enquanto mãe e profissional posso dizer que estes ingredientes são fundamentais numa relação que se pretende equilibrada e saudável. 

IMG_2696.jpg 

 Sigam o blogue no facebook AQUI e no instagram AQUI (@catiafilipasantos1)

 

A Blogger:

Cátia Santos catiafsantos@hotmail.com

Segue-me:

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D