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A Rapariga na Aldeia

Blog pessoal de uma rapariga que vive na aldeia e às vezes vai à cidade.

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"O cancro deu-me uma visão mais colorida da vida"

Hoje, 30 de Outubro, assinala-se o Dia Nacional de Luta Contra o Cancro da Mama. O tipo de cancro mais frequente nas mulheres e também uma das doenças com maior impacto na sociedade "não apenas pela sua prevalência, mas também por afetar um órgão cheio de simbolismo, quer na maternidade quer na feminilidade". 

 

Durante este mês - Outubro Rosa - muitas têm sido as campanhas de consciencialização cujo objetivo é alertar para a importância da prevenção no combate ao cancro da mama. Também aqui no blogue a data é assinalada. Nas próximas linhas falar-se-à do cancro da mama na primeira pessoa, sem rodeios. Segue uma entrevista a Marta Ferreira Costaenfermeira especialista em Saúde Materna e Obstétrica no Centro Hospitalar do Porto, a quem foi diagnosticado cancro da mama aos 34 anos de idade.

23113031_10208490179366826_455797367_o.jpgMarta Ferreira Costa

 

 

Quais foram os primeiros sinais da doença? O que a levou a fazer exames de diagnóstico?

Comecei por sentir algum desconforto na mama direita, principalmente à noite quando me deitava para dormir. Sentia uma peso "enorme" na mama. Fui ao médico e, durante uma semana, tomei anti-inflamatório de 12/12h. Ao fim dessa semana continuava igual, com o mesmo desconforto inicial. Foi então que, por recomendação médica, fiz uma ecografia mamária. Saliento. Estávamos em agosto de 2010, e em junho eu tinha feito ecografia de rotina e tudo aparentava estar normal. Mas eu não considerava normal todo aquele incómodo. Para mim, alguma coisa devia estar a passar-se! Insisti junto do médico para fazer mamografia, acrescentado ainda o facto de ter três tias mastectomizadas

 

O cancro da mama é hereditário?

Pode ser, se houver vários casos relatados na família deve fazer-se pesquisa. No meu caso havia, as minhas tias, tios e um primo materno. Fiz o rastreio e foi negativo. Não era hereditário. Porém, a partir dos 35 anos, se houver história de cancro na família, deve fazer-se o despiste do mesmo. 

 

Depois da mamografia não restaram dúvidas?

Sim, fiz a mamografia e percebi que havia uma imagem suspeita. Voltei a fazer uma ecografia a já revelava alterações. No dia seguinte fiz uma biopsia aspirativa (punção aspirativa por agulha fina) e após dez dias recebi o resultado da anatomia patológica - era Carcinoma in situ. A partir daqui começou uma luta constante para tentar resolver a minha doença o mais rápido possível. 

 

Em que consistiu o tratamento da doença?

Os exames foram feitos no Centro Hospitalar do Porto (onde trabalho) mas acabei por ser seguida no IPO do Porto onde, em novembro desse ano, fiz mastectomia total com avaliação de gânglio sentinela e com reconstrução imediata. Fiquei internada durante cinco dias e após a alta fazia o penso dia sim dia não no IPO e, hoje posso dizer, que correu tudo muito bem. Dez dias depois tive consulta de Oncologia Médica e recebi o resultado da anatomia patológica do tumor. Era maligno mas não era invasor, ou seja, não invadiu outros órgãos além da mama. O que foi uma grande lufada de ar fresco! Iniciei quimioterapia subcutânea com a toma mensal de uma injeção durante dois anos e a toma contínua de um comprimido via oral que irá fazer parte do meu dia a dia até 2020. 

 

Que apoio psicológico foi disponibilizado?

A nível profissional tive o auxílio e o suporte de um psiquiatra que ainda hoje me acompanha. A nível familiar tive o apoio incondicional do meu marido Michel, também enfermeiro, e que nunca acreditou que eu pudesse ter cancro da mama. Agradeço aqui publicamente tudo o que fez por mim e pelos nossos filhos, o Miguel e o Gabriel, na altura tinham 10 e 8 anos. Os meus pais também foram incansáveis. Ajudavam o meu marido com os meninos para que ele pudesse cuidar de mim. Nos primeiros dias de internamento, a minha mãe passava o dia comigo e o meu marido as noites. O grande pilar foi a família. Sofriam comigo mas não demonstravam. Acreditaram sempre que eu iria ficar bem. 

Os meus colegas enfermeiros do IPO que trabalham no bloco, o enfermeiro Pedro, a enfermeira Deolinda, os do piso 10, os enfermeiros chefe, os enfermeiros de cabeceira, as auxiliares de ação médica, os voluntários da Liga Portuguesa Contra o Cancro ... enfim, todos uns grandes AMIGOS, também foram para mim um forte apoio psicológico! 

 

Como explicou aos filhos o que iria acontecer?

Na altura foi complicado, o Miguel tinha 10 anos e o Gabriel apenas 8. Contei tudo o que podia contar. Tive uma conversa com eles. Disse que iria ser operada à maminha, que tinha cancro da mama, que iria ser tratada no IPO e que tudo se iria resolver pelo melhor. Eles deram-me força. Perguntaram-me se o papá iria estar sempre comigo ... e se poderiam visitar-me ... 

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Há uma nova visão da vida depois do cancro?

Sem dúvida ... eu comecei a viver cada dia como se fosse o último. A dar mais valor à família, aos amigos, à vida e às oportunidades que ela me dava. O cancro deu-me uma visão da vida talvez mais colorida. Ajudou-me a crescer e a dar importância a tudo e a todos. Nada acontece por acaso. Eu trabalhei com utentes submetidas a mastectomia. Conversávamos imenso ... lembro-me de lhes dizer que um dia foram elas, no outro podia ser eu. Somos todos iguais, feitos da mesma coisa e ninguém está livre. 

 

Sete anos depois o cancro da mama, que cuidados continua a ter?

Para além do tal comprimido que irei tomar até 2020, faço consultas anuais, ecografias e mamografias para ir vigiando também a outra mama. 

 

O que é que pode ser feito em termos de prevenção?

A prevenção passa pela palpação diária da mama e da zona axilar. Fazer ecografia e mamografia uma vez por ano. E estar atenta a alterações que a mama pode apresentar nomeadamente dor, alteração de cor e aspeto do mamilo, saída de líquido do mamilo. 

 

Que palavras pode dirigir a quem, neste momento, recebeu um diagnóstico de cancro da mama?

Nunca desanimar. Ter muita força. Lutar, lutar sempre. Nunca pensar porquê eu? Somos todas iguais, nunca somos coitadinhas mas sim vencedoras por sermos postas à prova diariamente.  

  

Apesar de já o ter feito em privado, deixo aqui o meu agradecimento à enfermeira Marta pela disponibilidade em partilhar a sua história tão delicada com os seguidores deste blogue. 

 

Muito obrigada enfermeira Marta. 😀

 

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